quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Aquarion Logos e a linguística


Você deve estar se perguntando o porquê de entre todos os animes possíveis de serem analisados, eu ter justamente escolhido a terceira temporada de um anime cheio de triângulos amorosos, robôs e metáforas sexuais como Aquarion. Pois bem, hei de me justificar! Por diversos motivos, Aquarion Logos, é notavelmente a menos popular entre as três temporadas, e isso quer dizer que menos pessoas vão se importar em assistir. Em outras palavras, ele acabou entrando na nossa jurisdição pela sua falta de popularidade. A série anterior, Evol, já era alvo de críticas por não ser "séria" o bastante. Por outro lado, há os que defendem que o primeiro Aquarion era horrível e o Evol é o único bom. Visto que o fandom não consegue chegar a um acordo, vamos ignorá-los e partir para a análise.

Análise



Saussure
A temática de Aquarion Logos (logos=conhecimento) é a linguagem, sobretudo os kanjis, que nas palavras do vilão, agregam um significado (sentido) dentro do próprio significante (símbolo gráfico). Isso implica em dizer, portanto, que os kanjis possuem uma relação indissociável e natural com o que representam, o que iria contra a concepção moderna de Saussure, pai do estruturalismo linguístico, que postulou que o signo linguístico (símbolo constituído pelo significante e significado) era arbitrário e não possuía a priori nenhuma relação com a ideia que representava (logo, o nome "mesa" não tem nada que indique uma relação natural com a ideia que evoca). O vilão é capaz de destruir tanto o significante quanto o significado dos kanjis e criar monstros a partir dos mesmos, assim apagando completamente a existência do conceito que o kanji representava. Caso este não estivesse naturalmente vinculado com aquilo que significava, não faria sentido que ambos - significante e significado - se extinguissem, pois bastaria atribuir outro significante ao significado que o perdeu.


Nesse episódio em, o kanji de "verão" é contaminado, fazendo com que o
temperatura caia abruptamente em todo o globo
O fato de a alteração de uma palavra produzir efeitos tanto psicológicos como geográficos implica em dizer que a realidade depende e não pode ser separada da percepção do homem, que seria capaz de interferir na própria natureza meramente por lhe fornecer significação. Essa discussão (O mundo existe porque o homem o percebe ou o mundo existe como um fato independente do homem?) é milenar e data da época da Grécia antiga. Platão, filósofo notável, tentou explicar essa questão com a teoria de que existiam dois mundos: um mundo ideal, em que o homem não poderia colocar os pés, e o mundo real, que seria uma espécie de cópia desse mundo das ideias. Logo, na perspectiva dele, tudo aquilo que o homem percebia era falso, e é bem possível que o norteamento do vilão principal seja semelhante a esse. Acredita-se, inclusive, em um bom número de tribos nativas, que os nomes tem poder, e que a simples verbalização dos mesmos pode produzir um efeito na realidade, e essa é a base de muitos rituais de evocação de espíritos curandeiros por magia. É possível, contudo, que os efeitos geográficos sejam meramente ilusões dos sentidos humanos e não ocorram de verdade? Talvez, mas para efeito de análise, devo considerá-los como fatos reais e verificáveis.

KYUUSEISHU DAKARA
Nesse contexto em que a percepção do homem não apenas influi, mas define a realidade e a natureza tal como ela é, não é de se admirar que exista um personagem tão chuuni e altista como o Akira. As palavras tem poder, logo se alguém se diz salvador, é bem provável que essa pessoa se torne exatamente aquilo que está dizendo pelo simples fato de dizê-lo. Akira encarna o significado da própria palavra e o incorpora, fazendo o que um salvador faria e "salvando" uma pessoa diferente a cada episódio. Ele se comporta dessa forma porque o próprio universo em que habita lhe dá essa possibilidade, que é justamente o dom da palavra e a encarnação de todos os seus significados, Ao argumentar, no episódio 2, que a culpa não é das palavras do dicionário e sim daqueles que as usam, Akira adota uma postura tipicamente pró-saussuriana, ao contrário do antagonista, que se utiliza das palavras de modo a negar totalmente a arbitrariedade do signo linguístico postulada por Saussure, e despreza o próprio signo linguístico em si.


A razão para essa inadmissão da linguagem como instrumento de comunicação é citada brevemente na abertura: "Houve um tempo em que o homem era um só com o mundo da mente; mas a palavra escrita trouxe a prosperidade e o sofrimento". Há muitas formas possíveis de se interpretar essa sentença. Pode-se dizer que com o advento da civilização, a individualidade e a ação da vontade do indivíduo aumentaram, deixando de ser tão influenciadas pelo meio social, o que gerou crítica aos valores difundidos pelas gerações mais velhas, e consequentemente, sofrimento e discórdia. As escolhas também aumentam quando o indivíduo se desvencilha do grupo, e ele tem de lidar com a grande responsabilidade de fazer escolhas e de pensar por si mesmo, ao invés de aceitar uma espécie de consenso pronto de outrem. A linguagem e o pensamento são indissociáveis, e há aqueles que dizem que ela dá origem ao último, logo faz sentido que seja vista como alvo. O que se pode dizer é que entre o homem (sujeito) e aquilo que é externo a ele (objeto), há uma tradução em forma de signo compreensível, e esta molda a percepção na forma como ela é atualmente, uma capacidade humana que permite que se interpretam dados da realidade obtidos através dos sentidos. Ao dizer que o ser humano era um só com a mente, o narrador critica o entendimento do objeto através do símbolo (palavra ou kanji), e é em torno disso que o conflito principal vai girar durante a série.

Referências

-Apostilas de linguística do primeiro ano de Letras.
-Apostilas de psicologia do primeiro ano de Letras.
-MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

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